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Escalando o Caratuva na Mata Atlântica brasileira

Postado em 31/12/1969 por Ben Tavener

Foto: Ben Tavener

* Este depoimento é a tradução do original escrito por Ben Tavener, jornalista e fotógrafo britânico que recentemente mudou-se para o Brasil.

Eu me lembro que poucos meses atrás estive no Botanical Gardens, em Kew, Londres, olhando uns troncos de árvores cobertos por plantas e bromélias enormes, com flores coloridas que brotaram no topo.

Elas tinham uma legenda com algo como “Encontradas na Mata Atlântica do Brasil“. Eu nem imaginava que estaria vendo-as ao vivo e em cores tão cedo.

Neste final de semana, um grupo de intrépidos exploradores – bem, dois brasileiros, dois franceses e um britânico (eu) – foram para a Serra do Mar, ao norte de Curitiba, no estado do Paraná. Nosso objetivo: chegar ao topo do Pico Caratuva, a segunda montanha mais alta do sul do Brasil, com 1860m – entre as dez montanhas mais altas do país.

A mesma trilha também leva à montanha mais alta do sul do Brasil - o Pico Paraná (ou PP como os nativos o chamam) – que, com seus 1877m, também não é extremamente alta.

Entretanto, essas montanhas não são como as montanhas ou morros que a gente costuma escalar nos finais de semana no Reino Unido ou na Europa continental – elas são relativamente difíceis e requerem uma boa dose de energia física.

A cordilheira se estende pelo sul do Brasil – seguindo paralela à costa do Atlântico e fazendo parte da Mata Atlântica - que embora traduzida como “Atlantic Forest”, no ponto onde a gente escalou era uma mistura de selva e floresta densa.

As primeiras coisas que fizemos quando chegamos ao posto na fazenda onde você tem que se registrar para fazer a escalada (para o caso de se perder) foram: apito – ok, lanterna – ok. Sem isso você não vai poder escalar – a maioria dos acidentes nas montanhas são causados por se perder do grupo e não ter essas coisas.

Eu estava (in-)seguramente informado que eu seria o primeiro britânico a chegar ao Caratuva. (Eu duvido disso – e esqueci minha bandeira, de qualquer forma...)

EDIÇÃO: OK, eu não ouvi bem o cara. Ele disse que eu seria o primeiro britânico aquela semana. Mas eu ainda estou orgulhoso(!)

Para conquistar esses picos você precisa caminhar pela floresta densa, sabendo que cobras venenosas e aranhas estão na vizinhança.

A jornada ao cume do Caratuva levaria umas três ou quatro horas, divididas basicamente em três etapas. Uma vez tendo chegado à subida inicial, passando por árvores derrubadas e áreas pantanosas, você chega a um pequeno platô que tem uma impressionante vista da selva circundante. Isso te dá algum descanso antes da caminhada final – a escalada principal para o cume.

Urubus – abutres locais – circundam por ali com suas penas abertas como dedos longos, chamando assustadoramente uns pelos outros. O barulho de diferentes animais e pássaros não deixa dúvidas de onde você está.

Encontrando poucos montanhistas no caminho, que deram estimativas variadas sobre quão longa esta última caminhada deveria ser até o cume, a gente sabia que tinha só duas horas para chegar ao final, uma subida árdua, antes de termos que voltar.

Passando uma placa (Caratuva à esquerda, Pico Paraná à direita – que leva cerca de 12 horas de caminhada para subir, muitos passam a noite acampados em cima da montanha), a gente sabia que tinha passado do ponto sem volta.

Contornando pela vegetação retorcida de árvores enormes com raizes igualmente grandes, talos de bambu e flores exóticas, a primeira e menos íngreme parte da selva foi a chance de usar o desafio mental de ter que pensar em cada lugar que você põe o pé, e cada próximo ramo que você vai segurar para manter o equilíbrio ou te puxar para cima.

Em algumas partes você tem que escalar sobre grandes pedras para chegar à próxima parte da trilha, que segue paralela ao riacho da montanha de onde a gente pegou água para beber.

Mas isso também significa que a trilha pode estar úmida, e é claro que áreas de selva são exuberantes e verdes por uma razão: estar no nível das nuvens significa que na região costuma ter muita chuva.

A gente teve sorte no dia e o sol estava perfurando o dossel de nuvens: temperatura de 27°C significava que a trilha – que não é muito bem marcada – não estava encharcada ou muito lamacenta (mas suas botas de caminhada vão precisar de uma limpeza mais tarde!).

Como você continua indo montanha acima pela mata, há umas partes onde seus braços são bem importantes, senão mais do que suas pernas. Olhando para frente, para dois ramos convenientemente localizados, agarrar era o nome do jogo - era preciso literalmente puxar ou balançar-se neles.

Quando você alcança as partes fáceis, você pode sentir seus batimentos cardíacos reduzindo de um martelar para um ritmo mais relaxado.

Depois de tanto anseio, a suada escalada está atrás de você, e de repente você começa a capturar vislumbres de quão alto você está – a luz do sol quebra mais e mais frequentemente através do dossel da selva e depois, de repente, você alcança os poucos metros finais da trilha – a céu aberto, a vegetação baixa do cume.

Poucos metros mais de escalada por afloramentos rochosos e uma torre de sinais de comunicação e você alcançou o topo.

A vista, sob a vizinhança do Pico Paraná e os picos da Serra do Mar cincundantes significam que a escalada valeu a pena.

Agora a gente tem só um pouco de tempo para aproveitar a vista deslumbrante, dar uma mordida na comida e tomar um gole de água antes de descer de volta ao acampamento base onde tudo começou.

Link indicado: Newsling do Brasil

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